Mealha (½ Dinheiro) em bolhão de D. Sancho II (1223–1248), metade de um dinheiro “Cruz Cravada”, diâmetro 12,8 mm e 0,22 g.
Este exemplar fracionado constitui, na minha análise, uma evidência física muito relevante para compreender que as chamadas Mealhas dificilmente corresponderiam a moedas inteiras. Com um diâmetro de 12,8 mm e peso de 0,22 g, esta metade de Dinheiro enquadra‑se proporcionalmente nos valores atribuídos por Alberto Gomes às supostas Mealhas completas (≈15 mm e 0,5–0,6 g). Seguindo essa lógica, esta peça equivaleria a uma “fração de Mealha”, correspondente a ¼ de Dinheiro, o que sugere a incoerência dessa classificação e reforça a interpretação de que as Mealhas resultam de Dinheiros partidos ao meio, e não de uma emissão autónoma.
Obs. Técnica – Tipologia Cruz Cravada e Mealhas
A tipologia dos Dinheiros de “Cruz Cravada” tem sido alvo de longa controvérsia, iniciando-se com a atribuição a D. Sancho II por Teixeira de Aragão, passando depois para D. Sancho I nos catálogos de Ferraro Vaz e permanecendo ainda hoje assim no catálogo digital da Casa da Moeda, embora estudos desenvolvidos nas últimas décadas — tanto na epigrafia comparada como nas análises ao teor de prata — sustentem a reatribuição ao reinado de D. Sancho II seguida por Alberto Gomes. A segunda questão crítica reside nas chamadas Mealhas (½ Dinheiro), classificadas por Alberto Gomes como moedas completas no 1.º grupo de Sancho II, classificação herdada de Ferraro Vaz; contudo, a evidência física observada em múltiplos exemplares demonstra que estas unidades correspondem a frações obtidas pela divisão de Dinheiros inteiros e não a uma emissão autónoma, sendo que eu próprio já identifiquei diversas meias moedas desta tipologia — peças partidas ao meio — com diâmetros e pesos que, segundo as classificações atuais, corresponderiam às chamadas Mealhas completas, o que implicaria que estas meias moedas fossem “meias Mealhas”, equivalentes a ¼ de Dinheiro, evidenciando que a Mealha completa não existe como unidade monetária independente. Assim, embora siga as referências de Alberto Gomes para efeitos de catalogação, a interpretação final permanece dependente da análise de cada colecionador até surgir documentação definitiva que resolva estas inconsistências.
(A foto que está a visualizar corresponde à moeda que vai receber na sua encomenda)
Consultar as variantes e tipologias conhecidas destas moedas nos catálogos:
- Código "Alberto Gomes edição 2006" D. Sancho II =
- Código "Alberto Gomes edição 2013" D. Sancho II =
- Código "Alberto Gomes edição 2021" D. Sancho II =
Características descritivas:
- Reinado: D. Sancho II (1223–1248)
- Tipologia do catálogo Alberto Gomes / S2: 1.º Grupo
- Liga do metal de referência: Bolhão (Ag 83% — composição média, podendo ocorrer variantes com teor inferior)
- Módulo / Diâmetro: 15 mm (este exemplar: 12,8 mm)
- Peso de referência: 0,50–1,20 g (este exemplar: 0,22 g, correspondente a metade de um Dinheiro inteiro)
- Cunhagem: Manual, batida a martelo
- Rebordo / Orla / Cercadura: encordoada
- Bordo: liso irregular
- Eixo: não aplicável
- Registo de emissão de cunhagem: desconhecido (cunhagem manual, batida a martelo)
Tipologia Iconográfica — Anverso:
Dentro de um círculo encordoado cinco escudetes de formato triangular ▼ dispostos em cruz, sendo que todos os escudetes estão dispostos na vertical. A cruz é cantonada por pontos nos quadrantes.
Distribuição dos quadrantes :
1.º Quadrante (Superior direito):•
2.º Quadrante (Inferior direito):•
3.º Quadrante (Inferior esquerdo): •
4.º Quadrante (Superior esquerdo):•
Tipologia Iconográfica — Reverso:
"Cruz Cravada" ❈ cujas extremidades são rematadas por pontos •.
Distribuição da legenda nos quadrantes:
1.º Quadrante (Superior direito): PO
2.º Quadrante (Inferior direito): RT
3.º Quadrante (Inferior esquerdo): VG
4.º Quadrante (Superior esquerdo): AL
Descrição e legenda do Anverso:
Ao centro, dentro de um círculo encordoado, surgem cinco escudetes de formato triangular ▼ dispostos em cruz, todos orientados na vertical. A cruz formada pelos escudetes é cantonada por pontos • nos quadrantes. No rebordo, círculo encordoado; em seu redor, a possível legenda: • REX SANCIV (“REX SANCIVS”). Tradução aproximada: “rei Sancho”. A epigrafia revela escrita gótica monetária, típica da paleografia medieval portuguesa.
Descrição e legenda do Reverso:
No campo, surge a “Cruz Cravada” ❈, cujas extremidades são rematadas por pontos •. A cantonar os quadrantes, distribui‑se a legenda fragmentada: PO RT VG AL (‘PORTVGALIAE’). Tradução aproximada: “Portugal”. A epigrafia apresenta escrita gótica monetária com abreviação típica das emissões medievais portuguesas.
Nota sobre a leitura dos quadrantes:
Existem diferentes metodologias para identificar os quadrantes de uma moeda, variando entre sistemas matemáticos, trigonométricos ou de orientação visual. Para garantir rigor, coerência e compatibilidade com a bibliografia numismática portuguesa, todas as fichas técnicas deste website utilizam o sistema de classificação aplicado no catálogo de Alberto Gomes.
Neste sistema, os quadrantes são numerados no sentido horário, começando no canto superior direito:
┌───────┬───────┐
│ 4 │ 1 │
│ Sup.E │ Sup.D │
├───────✠───────┤
│ 3 │ 2 │
│ Inf.E │ Inf.D │
└───────┴───────┘
Assim, a identificação dos símbolos, letras de legenda e elementos iconográficos segue exatamente a mesma orientação utilizada por Alberto Gomes no seu catálogo, assegurando uniformidade e precisão na descrição das moedas medievais portuguesas.
Contexto Histórico e Classificação dos Dinheiros Medievais Portugueses:
Os Dinheiros medievais portugueses, emitidos ao longo de cerca de 250 anos pelos primeiros nove reis da 1.ª Dinastia, constituem a base da história monetária nacional. A sua evolução revela alterações significativas no estilo, variando na iconografia, na epigrafia, no peso, no valor e na composição metálica, sendo cunhados em bolhão, uma liga de prata e cobre cuja pureza variou entre os reinados. A classificação destas moedas continua a ser objeto de estudo especializado, existindo variantes raras a surgir e diversas atribuições de reinado ainda em discussão. Um dos casos mais relevantes é o dos Dinheiros tradicionalmente atribuídos a D. Pedro I, que segundo análises epigráficas desenvolvidas por vários numismatas nas últimas décadas, poderão corresponder a cunhagens tardias de D. Dinis I. Esta hipótese não deve ser descartada, sobretudo porque algumas das peças catalogadas por Alberto Gomes como pertencentes a D. Pedro I apresentam características paleográficas e morfológicas que se alinham claramente com padrões dionisinos. Importa recordar que muitas classificações atualmente aceites têm origem em estudos com várias décadas de existência, alguns ainda baseados em tradições catalográficas iniciadas por Ferraro Vaz e Teixeira de Aragão. Embora fundamentais, esses trabalhos refletem o conhecimento disponível à época, e parte dessas atribuições necessita hoje de revisão crítica à luz de novos métodos de análise, nomeadamente epigrafia comparada, estudo de variantes de cunho e reinterpretação das sequências de emissão. Tudo isto demonstra que, apesar da sua aparente simplicidade, os Dinheiros constituem um campo numismático complexo, marcado por múltiplas tipologias, variantes e evoluções técnicas que espelham a transformação económica e política de Portugal medieval. Muito ainda há por investigar nestas primeiras moedas batidas em território português, sendo um domínio onde novas descobertas continuam a surgir e a desafiar classificações tradicionais.
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